GERAÇÃO RASCA: A IMPORTÂNCIA DOS BLACK COMPANY PARA O HIP-HOP MOÇAMBICANO

Posted on Julho 1, 2015

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Entramos na máquina do tempo e recuamos precisamente 20 anos. Estamos, portanto, em Maputo no já longínquo ano de 1995 – Meu Deus como o tempo voa! Desconfio, honestamente, que seja a única ave cujas asas não podem ser amputadas. Muitos dos meus estão no auge da puberdade e por estas alturas acabam de sair do ensino primário e já andam na Manyanga ou Josina, no Comércio ou na Indústria. Sim, nessa altura estas quatro escolas eram, praticamente, as únicas secundárias existentes a nível da Cidade de Maputo. Logo, muitos dos aborrecentes, digo, adolescentes que viviam no gueto apanhavam chapa pela primeira vez pra ir à escola – imagine-se a emoção!

Do meu lado suburbano, Benfica, estamos com sorte, acaba de ser inaugurada uma escola ali no Mahlazine, uma das primeiras escolas secundárias a ser construída de raíz fora da cidade e, assim, continuámos a estudar “perto” de casa. Todavia, tanto de lado de cá como do lado de lá, o cenário escolar é o mesmo: jovens de diferentes bairros confluem num mesmo espaço o que acaba propiciando uma maior dinâmica na troca de experiências musicais. CDs já existem mas são praticamente uma utopia, cassetes sim, essas são uma realidade. O Rock e o Rap são os estilos musicais predominantes e, por essa via, as tribos musicais dividem-se exactamente nesses dois grupos: roquistas e repistas. O radicalismo é tanto que os rockers recusam-se veemente a introduzir uma única cassete doutro género musical em seus decks alegando que as mesmas podem danificar seus estimados aparelhos, os rappers por seu turno fazem o mesmo. Coisas de putos. E eu por essa altura vivo na linha que separa os dois grupos sem saber pra onde ir, na verdade até hoje vivo assim.

De Rap, que é o que nos interessa agora, ouve-se um pouco de tudo que nos chega das duas costas norte-americanas, mas é sobretudo a West Coast que domina o cenário, Snoop Doggy Dogg, Warren G, 2Pac, Ice Cube e Dr Dre. A vida não estava nada fácil pra malta BIG, Mobb Deep, EPMD, Nas e Jay-Z. Penso que o Rap da East Coast só voltou a mostrar o seu valor após ao sucesso da Wu Tang como grupo e da porrada de álbuns álbuns a solo dos seus membros e afiliados. Mas isso é outra discussão. São, portanto, esses Raps que vão passando de mão em mão entre os miúdos da escola.
O Rap cá de casa, nesta altura, vive literalmente à custa desses nomes, uma vez que as letras dos rappers nacionais são compostas, basicamente, de extractos de várias letras desses artistas internacionais. Quase todas cantadas em inglês, um inglês muito mal falado, diga-se.

Entretanto, nesse ano de 1995 surgem dois álbuns de expressão lusófona, vindos de Portugal, que acabam desequilibrando esse “modus operandi”: “Pé Na Tchôn KaRapinha Na Céu” do General D e os KaRapinhas (EMI, 1995) e “Geração Rasca” dos Black Company (Sony, 1995). O primeiro, apesar de ter sido engenhosamente elaborado, foi conhecido principalmente pelo single de avanço “Black Magic Woman”, o último, em contrapartida, foi muito para além da faixa “Geração Rasca (Quem Vou Culpar?)” que dava título ao album e conquistou o público com hits como “Toda a Noite”, “Abreu” e “Pura Ressaca”. Na verdade o sucesso deste álbum estendeu-se um pouco por todas as doze faixas que o constituíam, suplantando inclusivé, o êxito do álbum homónimo do rapper brasileiro Gabriel O Pensador (Sony Music, 1993), que principalmente através da faixa “O Resto do Mundo” erroneamente intitulada “Eu Queria Morar Numa Favela” pavimentou o caminho para muitos álbuns cantados em português, que acabaram saindo em quase todos os países falantes de língua portuguesa.

Com efeito, a partir de “Geração Rasca” muitos rappers nacionais começam a abandonar o exercício de decorar letras em inglês e passam a fazê-lo em português. Embora não haja dados para confirmar tal facto, é provável que este álbum detenha o record dos álbuns de Rap mais decorados de sempre. Muitos jovens da minha geração, rappers ou não, incluindo eu próprio, ainda têm todas as letras deste álbum na cabeça. Por conseguinte, estes passaram a sentir-se motivados a escrever em português.
Um exemplo válido dessa influência é uma roda de freestyles, onde participou o grupo Rappers Unit, durante uma entrevista concedida por estes ao programa “TVM Soul” apresentado por Rogério Dinis, a primeira e a última vez que vi o grupo num programa de TV, creio que tal aconteceu em 1996, Heldito Malele pode confirmar. Neste recordo-me como se fosse hoje que o próprio Rogério Dinis abriu a roda repando: “Aqui no TVM Soul tá se bem tá se bem…” e depois disto seguiram-se outros dentre os quais DJ-Eduardo PM que repou algo como: “Esta é uma geração rasca/ não quero estar arrasca…”. Bom, tanto num como noutro nota-se claramente a apropriação da linguagem usada por Bantú (agora Gutto), Bambino e Makkas. Recordo-me igualmente que foi a primeira vez que Rogério Dinis referiu-se a si mesmo como Mc Roger, dizendo algo como: “Não se surpreendam se um dia destes eu aparecer como rapper numa de ‘Mc Roger’”, pretensão que veio a concretizar-se em 1997 com o lançamento do álbum “Moçambique minha paixão”, pela então emergente Vidisco Moçambique. Mas isso é outra história.

Magus da Siderurgia