MERCADO NEGRO: ENTREVISTA COM MESSIAS

Posted on Janeiro 11, 2011

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Em Setembro de 2010 foi editado o último longa duração dos Mercado Negro “Conversas de Quintal” que conta com várias participações especiais como Chaparro, Bob Da Rage Sense, entre outros. Estivemos à conversa com o líder Messias daquela que é uma das bandas de reggae mais bem sucedidas no universo afro lusófono.

1- Lembras-te da primeira vez que ouviste reggae? Qual foi a música e em que circunstâncias?

Bom, já foi há muito tempo né…mas sim, foi ainda em  Angola. era puto e ouvia pela rádio uma música que hoje sei que se chama “I can see clearly now” cantada por Johnny Nash, um cantor americano que cantava soul / baladas, não cantava propriamente reggae, apesar dessa música e mais uma ou outra dele terem um cheirinho a tal. Naquela altura  eu não sabia que aquilo era  reggae , nem tão pouco o que era reggae. Essa música foi depois popularizada por uma versão de Jimmy Cliff. Mas foi já em Lisboa na minha adolescência, que um amigo apresentou-me então ao reggae e a música que me mostrou e logo me prendeu foi ” Roots Rock Reggae” de Bob Marley.  Desde aí até hoje é um modo de vida.

2- Fala-nos um bocado da história do reggae em Angola. Quem foram os pioneiros? Existiu ou existe uma cena reggae em Angola?

Sabes, eu vim para Portugal quando o reggae ainda não se ouvia ou consumia como tal em Angola, daí que conheço melhor a história do reggae em Portugal. Penso que o reggae angolano que tem mais expressão, é aquele que é feito pelos angolanos na diáspora. Entretanto  lembro-me do Diabik que era um dos nomes mais marcantes na cena reggae angolana e que nos anos 90 conviveu connosco aqui em Portugal. Existem algumas bandas nesse momento e existem comunidades rastas em Angola, mas eu acho que o reggae lá ainda é olhado com um certo preconceito, sobretudo por parte dos “media”, mas entretanto é bem recebido e apreciado  por parte da juventude e do povo em geral, como em todo mundo.

3- Qual foi o teu percurso enquanto músico até chegares aos Mercado Negro?

Eu cresci rodeado de música e músicos na minha família, o meu avô  tocava acordeon e tios e primos tocavam desde guitarras a percussões…havia uma viola que rodava pelas mãos de quem a apanhava primeiro e enchia de música o nosso quintal. Aqui em Portugal fiz parte de um grupo que tocava em bares música brasileira e africana, depois fundei um grupo de percussões “Grupo Wembo” e mais tarde é aquilo que quase todos sabem, fui membro fundador dos Kussondulola donde estive cerca de 10 anos e finalmente criei os Mercado Negro.

4- Fala-nos um pouco deste novo disco. É um álbum de continuidade ou estão constantemente em busca de novas sonoridades?

Bom,  existe sempre uma continuidade que no fundo é a marca do artista, aquilo que nos define e diferencia dos outros enquanto tal…mas a busca de novas sonoridades é constante e vem desde o princípio, digamos que o conceito primário dos Mercado Negro foi  fazer uma música em que o reggae estivesse presente como fio condutor, mas onde coubessem todas as nossas influências e claro,a música africana e angolana em particular . Isso, mais ou menos conseguido, é o nosso caminho, não fazemos o reggae que se fez ou se faz na Jamaica. Nesse disco tem inclusive uma música com guitarra portuguesa e um dos convidados é uma cantora da nova geração de fadistas.

5- Qual foi o critério para a escolha dos convidados?

Os convidados são praticamente nossos amigos, pessoas com quem nos encontrámos ou na sala de ensaio ou na noite, cantores e músicos com quem, digamos, temos afinidades musicais, que admiramos e cujas vozes “ouvíamos” nas nossas músicas a medida que elas iam crescendo.

6- Achas que a introdução de elementos afro no reggae lusófono é uma coisa natural?

Com certeza, no nosso caso sim, são as nossas raízes e são elas que nos mantêm, como já dizia Marcus Garvey, “um homem sem cultura é como uma árvore sem raízes”…cai. Não vivemos na Jamaica e a riqueza da música africana faz parte do nosso dia-a-dia, e são esses elementos que nos identificam que injectados ao reggae,  tornam a nossa música mais original. O reggae veio de outras músicas e aceita outras músicas também.

7- Os Mercado Negro são das bandas de reggae com mais espectáculos por ano , como vês a cena reggae em Portugal, tendo em conta que a maioria das bandas do género tem dificuldade em arranjar espectáculos?

Sem dúvida que somos das bandas de reggae que mais toca, isso talvez aconteça pela abertura que tem a nossa música, que é abrangente naturalmente e faz, digamos, uma ponte entre gerações e entre culturas. É claro que as coisas não são fáceis, mas quando acreditamos e fazemos as coisas por paixão, mais cedo ou mais tarde conseguimos realizar os nossos sonhos. A luta é no dia-a-dia, e apesar das barreiras eu acho que o reggae em Portugal está vivo, isso medido pelas bandas  que existem, os sound systems, o facto de Portugal estar na rota dos maiores expoentes do reggae internacional e sobretudo dos fãs e amantes do reggae que fazem de tudo isso um movimento. Temos que continuar a criar e a manifestarmo-nos para continuar a abrir portas.

8- O reggae é normalmente um género com um carácter interventivo. Qual é a mensagem dos Mercado Negro?

Sabes, a nossa mensagem além da social, é uma  mensagem de Esperança, de Paz, de Amor, de consciência ambiental planetária, de harmonização entre culturas, em suma, tentamos alertar e injectar um certo positivismo na vida das pessoas.

9- Os vossos videoclips são sempre apresentados com uma estética bastante original. Nos dias que correm que importância têm os vídeos para os Mercado Negro?

Os vídeos têm muita importância para nós, na verdade deixamos fluir, que seja a música a encontrar a própria imagem, os vídeos, e que eles sejam um prolongamento da própria música. Vemos tudo como parte de um todo, desde a música, vídeos, grafismo da capa dos discos, sites, etc…queremos que se interliguem, que se completem e expressem o nosso sentido estético/artístico.

10- Quais são os projectos nacionais (em qualquer género) que mais te entusiasmam no momento?

Gosto muito dos Ngonguenha,  Cacique 97 , dos Batida, Orelha Negra entre outros.

11- O que esperam os Mercado Negro para 2011?

Costuma-se dizer que as  crises são terrenos férteis para  oportunidades. E é assim que nós olhamos para isso. Esperamos que com o nosso novo disco “Conversas de Quintal” continuemos a levar mais positividade à vida das pessoas que nos ouvem, tanto através do disco como de muitos  concertos que esperamos dar tanto em Portugal como fora. Que seja um ano muito positivo para todos em geral e para a música em particular.